Mãos na cabeça: será que vou ficar sem ela?
Vamos começar por uma pequena correcção: não é mãos na cabeça, é mãos nos headphones. Talvez não seja assim tão descabido. Ontem foi o primeiro dia de férias. Resta-me saber se tudo vai correr bem. Lá fora, o sol mostra toda a sua raiva e ecoa: "and that's why you love me/Fearless, fearless!". Até o próprio sol começa a mostrar-se impaciente por tanta demora dos Bravery. Até eu, confesso. Caríssimo sol, de face de assassino e de face de abade que não sabe se a sua maior fúria é o seu maior benefício, acalma-te.
Nos headphones começa a entrar um, dois, três...chega, basta o primeiro para eu saber o que se passa. O cuco de um relógio mecânico dá, de bico calado, o mote para que todo eu entre noutra dimensão. Onde pouca gente penetra, onde só se entra se se compreender a linguagem.
Não digo que seja do delírio, mas tenho a sensação de ver coisas como se estivesse a desfolhar um livro de ilustrações. O meu estado é absurdo; ataraxia e catarse trocam olhares sufocantes, aproximações invisíveis, enfim, dois primos direitos da 5ª ou 6ª geração amam-se indefinidamente até que o ciúme os consuma (como quase me consumiu....Pequeno problema: como tenho eu ciúmes de alguém que nunca me traiu?Será que eu não terei ciúmes antes de mim?Não terei ciúmes antes de não conseguir dizer o que se passa comigo, ou seja, o que perpassa por mim como sentimento?). A música começa impiedosamente a reduzir-me como já esperava sem há muito a conhecer a escombros negros, à deriva num mar de lágrimas que eu nao consigo ver porque não consigo chorar. Ainda acredito que sou forte. Só ouvindo "Karma police..." já sinto que vou ficar preso. Acabou-se a resistência. Os cinco soldados assinam um pacto de 4 minutos em como mais ninguém, nem sequer eu, vou ter voz de comando para eles. O soldado da vista instala um belo e degradante repuxo na sua casa. Desse repuxo não corre água, correm gotas que só têm significado para quem as vê e sente a cair. A sua fórmula química não existe, evaporou-se. Até porque se as fórmulas químicas são factos verídicos e explicáveis, este torna-se um fenómeno sobrenatural, lugar em que as explicações apenas se situam no acumular de tensões pouco superficiais, antes profundas, e pouco equilibradas, antes ameaçadoras do fim choroso. O soldado do tacto consegue sentir uma luta interior onde milhares de sons como demónios invisíveis assaltam toda a estabilidade sempre alojada em cima de 1 mm de corda de trapézio. O do paladar acanha-se: mais demónio que nunca, ameaça desencadear uma hemorragia interior em forma de remoinho. Assim, os soldados do ouvido e do olfacto, cheirando-lhes a sangue, decidem adormecer do que tentar lutar contra o sangue que nunca acaba por sair de um corpo onde é ele que dita ordens.
Aquela música maluca ecoa, sonda, perscruta um lugar onde se alojar. É na minha memória.
E durante 3 minutos perdi o controlo de tudo. Ainda bem que poucas pessoas me compreendem e agora não me estão a ver, senão eu perdia a cabeça.
Mãos na cabeça finalmente, o esquecimento esqueceu-se de mim.
Arrisco a dizer àquela música dormente "até já". Ela acena, porque sabe que não a consigo esquecer porque a tristeza é inesquecível, mesmo quando penso (ainda consigo pensar?) que os meus olhos calaram-se, embora não queiram falar a sua língua devoradora. É um sinal que o controlo voltou. Chorar não, comoção sim. Ódio nunca, devoção a Santa Sílvia (a santa dos corações de manteiga anti-racionais) para sempre. Eu adoro a minha deusa.
Vamos tomar o amor pela religião. Um destes dias: "a prima dele é bastante religiosa, imaginas o andré com alguma santa nas mãos e um terço naqueles lábios suplicantes (esta parte é minha, vê-se, equivalente a: imaginas o andré a dar um beijo a alguém?)".
No fundo, toda a gente acredita que eu nunca comecei, mas acabei há muitos anos. É por isso que nunca mais escrevi o meu nome com letra maiúscula. Um manifestação no mínimo, pacífica e a favor da ordem pública: esqueçam-me.
"Karma Police" acabou-se. Apetece-me chorar finalmente. Rewind...

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