O silêncio é uma língua que só usamos se tivermos o dicionário certo...
There's no uninteresting subjects. There's just uninterested people.[THIS BLOG IS MAINTAINED FOR TWO YEARS...]
Thursday, June 23, 2005
Viagens
"Let's have a ball and a biscuit, suga/And take our sweet little time about it."
O tempo parece indeciso. Não sabe se quer saborear um deserto ou uma floresta.
Eu ficava pelo deserto...
Ainda vou pensar se deito fora este corpo malfadado e armo o balde com água e a pá mais pesada que houver e vou dar um passeio ao deserto. Junta-se a água do balde à vontade de me perder e o deserto começa a secar. Começa a secar porque sente que não estou bem, mas o meu mal-estar poderia dar para a evaporação do próximo dia de 60ºC e não vai dar. Se uma imagem vale mais que mil palavras, eu viro-me para o Matrix, esse mundo virtual venerado que eu acredito que esconde os verdadeiros seres humanos pelo menos numa arrecadação ou então, numa empresa de programação. A realidade não concorda comigo, por isso, há que dar de beber ao metal e à distorção deste mundo. Onde tudo parece bem, onde o mar parece não mais acabar, onde os arco-íris não escondem tesouros. Assim, as minhas pegadas plantam-se pelo Matrix, que é quente e vibrante no alcatrão, e cheio de espinhos. Parece um ponto de interligação entre o mundo real e este Matrix. Afinal descubro que esse ponto personifica-se num ruído de 5 minutos chamado "Ball and Biscuit". Onde se vê a destreza de uns dedos agarrados a uma guitarra eléctrica que não funciona a electricidade mas sim a testosterona inaudita inspirada numa voz tremelicante, onde se vê que uma bateria carrega suspiros de saudade de um casamento sonoro a rodar para o caminho certo. São Meg e Jack White, mergulhados num pesadelo onde a cada pessoa que vêem, fazem um abanão de alta voltagem e acordam-nos apenas para nos dizer que está tudo bem. Que não sabemos o que é esta loucura, mas é qualquer coisa de deslumbrante.
De repente, voltei à realidade. Eu não quero....eu vou voltar para o deserto!
A esta hora , o subsolo deve estar fresco ou então transformado no Purgatório. Mais ou menos como eu me encontro...
Mas passemos a coisas sérias. Em Portugal ainda vivemos um pouco longe de tudo. Calculo que se fosse para Londres neste momento com cerca de 40% de portugueses e a rádio começasse a difundir...Bem provavelmente, ouviria a BBC Radio, não é isso!....Provavelmente já seria como a Antena 3 actual: uma rádio jovem, pouco interessada em modas, sempre atenta aos grandes eventos musicais e cinematográficos. Franz Ferdinand, Bloc Party, Queens of The Stone Age, The Bravery, Kaiser Chiefs, The Libertines, Radiohead, Maximo Park, White Stripes...muitos perguntariam o que é isto. Pronto, esqueçam isto. Mudemos de assunto.
Vamos mergulhar 1000 metros. É aquilo que sinto quando ouço "Helicopter" dos Bloc Party. Uma amálgama de sons que, difusamente, apenas pretendem chegar a um baú do tesouro que nem sempre tem ouro ou prata. Às vezes não passa de pedra. Mas eles não param. Em viagens paralelas a esta realidade que não percebo, entrei no mundo dos sons. Fui àquela espécie de coro mirabolante que se vive entre alusões a James Dean e afirmações como "some things will never be different". Aqui paro. Agora percebo a razão de tudo o que pensei. Pegando numa premissa implacável de uns 11 anos atrás: a música não existe sem a nossa consciência, sem o nosso estado de espírito. É o seu espelho. Eu acrescento: a música precisa de lugares. Lugares imaginários ou reais dentro de uma realidade sem fim que deixam determinados sons com outra textura. "Fearless" dos Bravery não seria mais que uma canção excitante se não precisasse dela para tentar perceber que espíritos passam pela cabeça de uma Monalisa transcendente (esqueçam que a Monalisa era uma rapariga bonita e metam esta mulher no Céu) para começar a insultar um apreciador eterno daquela rapariga que em bem comprando um bilhete de ida para o museu onde ela está, vai raptá-la pelo preço de poder tocar-lhe para sempre. É essa a história daquela música. Não está lá escrita, mas fui eu quem a escreveu. Não a quero apagar; ninguém lhe irá tocar. "Everyday I Love You Less and Less" dos Kaiser Chiefs poderia significar o fim para tudo, mas nada mais significa que uma vida relaxada onde existem sempre expressões politcamente correctas porque arrancadas à força como "and my parents love me" (mais ou menos do tipo: ignorem que eu mereço 4 horas de histórias de infância e 5 horas de conversas mais desinteressantes que a morte de uma cobra igual a 200000 na mata do vizinho). "Everybody Knows That You're Insane" dos QOTSA talvez se traduza à letra. Loucura, insanidade, interrogações que ninguém percebe, desequílibrios do trapézio emocional que as pessoas do circo não estão preparadas para sequer resolver com um telefonema ao INEM ou uma lágrima do funeral. "Neighbourhood "2 (laika)" dos Arcade Fire também se pode traduzir traço por traço, parágrafo por estrofe, linha por verso, mas já significa uma profundidade sonora digna de fato de mergulho e uma festa estridente à superfície cujo tema é uma casa em ruínas. Que já ninguém vai tocar.
Como em ti: nunca te vão tocar como esperas que eu te toque... Vai ser assim para sempre...
Vamos começar por uma pequena correcção: não é mãos na cabeça, é mãos nos headphones. Talvez não seja assim tão descabido. Ontem foi o primeiro dia de férias. Resta-me saber se tudo vai correr bem. Lá fora, o sol mostra toda a sua raiva e ecoa: "and that's why you love me/Fearless, fearless!". Até o próprio sol começa a mostrar-se impaciente por tanta demora dos Bravery. Até eu, confesso. Caríssimo sol, de face de assassino e de face de abade que não sabe se a sua maior fúria é o seu maior benefício, acalma-te. Nos headphones começa a entrar um, dois, três...chega, basta o primeiro para eu saber o que se passa. O cuco de um relógio mecânico dá, de bico calado, o mote para que todo eu entre noutra dimensão. Onde pouca gente penetra, onde só se entra se se compreender a linguagem. Não digo que seja do delírio, mas tenho a sensação de ver coisas como se estivesse a desfolhar um livro de ilustrações. O meu estado é absurdo; ataraxia e catarse trocam olhares sufocantes, aproximações invisíveis, enfim, dois primos direitos da 5ª ou 6ª geração amam-se indefinidamente até que o ciúme os consuma (como quase me consumiu....Pequeno problema: como tenho eu ciúmes de alguém que nunca me traiu?Será que eu não terei ciúmes antes de mim?Não terei ciúmes antes de não conseguir dizer o que se passa comigo, ou seja, o que perpassa por mim como sentimento?). A música começa impiedosamente a reduzir-me como já esperava sem há muito a conhecer a escombros negros, à deriva num mar de lágrimas que eu nao consigo ver porque não consigo chorar. Ainda acredito que sou forte. Só ouvindo "Karma police..." já sinto que vou ficar preso. Acabou-se a resistência. Os cinco soldados assinam um pacto de 4 minutos em como mais ninguém, nem sequer eu, vou ter voz de comando para eles. O soldado da vista instala um belo e degradante repuxo na sua casa. Desse repuxo não corre água, correm gotas que só têm significado para quem as vê e sente a cair. A sua fórmula química não existe, evaporou-se. Até porque se as fórmulas químicas são factos verídicos e explicáveis, este torna-se um fenómeno sobrenatural, lugar em que as explicações apenas se situam no acumular de tensões pouco superficiais, antes profundas, e pouco equilibradas, antes ameaçadoras do fim choroso. O soldado do tacto consegue sentir uma luta interior onde milhares de sons como demónios invisíveis assaltam toda a estabilidade sempre alojada em cima de 1 mm de corda de trapézio. O do paladar acanha-se: mais demónio que nunca, ameaça desencadear uma hemorragia interior em forma de remoinho. Assim, os soldados do ouvido e do olfacto, cheirando-lhes a sangue, decidem adormecer do que tentar lutar contra o sangue que nunca acaba por sair de um corpo onde é ele que dita ordens. Aquela música maluca ecoa, sonda, perscruta um lugar onde se alojar. É na minha memória. E durante 3 minutos perdi o controlo de tudo. Ainda bem que poucas pessoas me compreendem e agora não me estão a ver, senão eu perdia a cabeça. Mãos na cabeça finalmente, o esquecimento esqueceu-se de mim. Arrisco a dizer àquela música dormente "até já". Ela acena, porque sabe que não a consigo esquecer porque a tristeza é inesquecível, mesmo quando penso (ainda consigo pensar?) que os meus olhos calaram-se, embora não queiram falar a sua língua devoradora. É um sinal que o controlo voltou. Chorar não, comoção sim. Ódio nunca, devoção a Santa Sílvia (a santa dos corações de manteiga anti-racionais) para sempre. Eu adoro a minha deusa.
Vamos tomar o amor pela religião. Um destes dias: "a prima dele é bastante religiosa, imaginas o andré com alguma santa nas mãos e um terço naqueles lábios suplicantes (esta parte é minha, vê-se, equivalente a: imaginas o andré a dar um beijo a alguém?)". No fundo, toda a gente acredita que eu nunca comecei, mas acabei há muitos anos. É por isso que nunca mais escrevi o meu nome com letra maiúscula. Um manifestação no mínimo, pacífica e a favor da ordem pública: esqueçam-me.