Saturday, September 17, 2005

Não é a nossa voz que nos marca.../Dois marcos de Portugal

Definitivamente, somos demasiado imperfeitos para sermos marcados pela nossa voz.
Somos como caixas vazias que se partem ao verem que ainda não conhecem o Mundo como pensavam e que poderão nem saber o que nele fazem.
Isso é bonito. Mas o desejo do amanhã rasga tudo, até esta modéstia improvisada.
Conhecer o Mundo será viajar sempre sem ficar na terra que, de forma leve, conhecemos e que mais facilmente podemos conhecer.
É por isso que Margarida Pinto e Álvaro de Campos só servem para alguns.
O que têm a ver? "Apontamento", o tema-título da estreia a solo da vocalista dos Coldfinger mas sempre com Miguel Cardona na sombra luminosa, fazendo uma dupla que nos distrai de si própria como poucas e que, durante excelentes temas, leva-nos para outros lugares. Isto é música.... Moderna, acrescente-se.

Álvaro de Campos só serve para estudar na escola. Desperta os mesmos sentimentos que seriam provocados pela audição mínima de "Apontamento": o sentimento que aquele mundo imaginário é demasiado necessário de se apagar e que o Mundo real é uma azáfama que pega no volante e leva a um bom final. Ouviu-se (no outro caso, será "leu-se"), "estudou-se" e tudo bem. Não é para exame ou teste, por isso estudar aquela letra e aquele tema é efémero. Talvez um dia seja uma boa história para ler a um filho intelectual.

Observem as semelhanças:

Álvaro de Campos
(Apontamento, 1929)

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos,não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.